outubro 28, 2012

Lições de um Boiadeiro

Posted in Aprendizado, Boiadeiros, Guias e Orixás, Mentores, Relatos e experiências tagged , às 1:42 am por carolyara

Uma das linhas que eu mais gosto, tanto quanto os pretinhos-velhos, é sem dúvida nenhuma a gira dos boiadeiros!! Certa vez, preocupada com a quantidade de atividades que eu tinha assumido e estava angustiada por achar que não daria conta, sem condições mesmo para desempenhá-las, eis que um querido boiadeiro me disse:

Quando os gados se esparramar, desgovernados, por entre o rebanho… toca o berrante, filha!

Naquele momento eu aprendia a lição da descentralização. Que tem horas que a gente precisa pedir ajuda, repartir tarefas, toca o berrante para conseguir ser acudida naquilo que sozinha eu não daria conta.

São com espíritos como esses que aprendo muito sobre a vida. E os sinto como os encarregados mais próximos de oxalá. Que desce quando a coisa tá no último segundo do aperto.

 

Pra quem não os conhecem bem…

Os Boiadeiros

São espíritos de vaqueiros, posseiros, capatazes, cangaceiros e até caboclos e espíritos afins. Sabem que a prática da caridade os levará a evolução, por isso, aproveitam a oportunidade do trabalho como espíritos desencarnados, incorporados na Umbanda para galgar essas esferas de desenvolvimento espiritual, antes de uma nova reencarnação.

Fazem parte da linha de caboclos, mais na verdade são bem diferentes em suas funções. Formam uma linha mais recente de espíritos, pois já viveram mais com a modernidade do que os caboclos, que dizem serem mais primitivos.  Portanto, podemos dizer que são espíritos que já conviveram em sua última encarnação com prática da magia na terra e o trato com aspectos naturais. Existem boiadeiros mais velhos, outros mais novos, e costumam dizer que pertencem a locais diferentes, como regiões por exemplo:  Nordeste, Sul, Centro-Oeste, etc…

 

Em sua maioria são meio rudes nas suas incorporações, com gestos velozes e pouco harmoniosos. Sua maior finalidade não é a consulta como os Preto-velhos, nem os passes e muito menos as receitas de remédios como os caboclos, e sim o “dispersar de energia” aderida a corpos, paredes e objetos. É de extrema importância essa função, pois enquanto os outros guias podem se preocupar com o teor das consultas e dos passes, existe essa linha “sempre” atenta a qualquer alteração de energia local (entrada de espíritos). PS: Mas isso não impede que eles possam dar atendimento, consulta ou passes.

Quando bradam alto e rápido, com tom de ordem, estão na verdade ordenando a espíritos que entraram no local a se retirar, assim “limpam” o ambiente para que a prática da caridade continue sem alterações, já que a presença desses espíritos muitas vezes interfere nas consultas de médiuns conscientes. Esses espíritos atendem a boiadeiros pela demonstração de coragem que os mesmos lhes passam e são levados por eles para locais próprios de doutrina.

Outra grande função de um boiadeiro é manter a disciplina das pessoas dentro de um terreiro, sejam elas médiuns da casa ou consulentes. Costumam proteger demais seus médiuns nas situações perigosas.  São verdadeiros conselheiros e sua maior devoção é ver no seu médium coragem, lealdade e honestidade, aí sim é considerado por ele como um “filho”.

 

E nesse ponto eu queria compartilhar uma proteção intensa que recebo do boiadeiro com quem eu trabalho: SEU LAÇO!! Por razões muito íntima mesmo, particular, percebi que seus laços são verdadeiros círculos mágicos. Por onde o universo passa. Que podem ser o instrumento mesmo com o coro, mas podem ser uma corrente, uma guia, podem ser os laços que unem as pessoas, o fio da vida, que nos mantém vivo, até o cordão de prata, que liga o espírito ao corpo ou o cordão umbilical.

Graças a essa LINDA LINHA eu devoto e agradeço minha própria vida. Agradeço a vida do meu filho, que nasceu todo enrolado, com um nó real no cordão umbilical mas que era frouxo o suficiente para não interromper o fluxo de sangue, oxigênio e fluídos.

Benditos são os encarregados de Oxalá!!!!

 

 

julho 3, 2009

Os ciganos e Santa Sara

Posted in Artigos Sugeridos, Ciganos, Linha do Oriente, Mentores, Recomendo às 2:04 am por carolyara

Mês de MAIO foi o Mês de Santa Sara e de louvor ao meu querido povo cigano!

Lamento por não ter conseguido fazer os posts em suas épocas respectivas. MAS, por se tratar de uma corrente tão forte e tão intensa na minha vida, não poderia deixar de homenageá-la, mesmo assim. E, para tanto, resolvi começar minhas homenagens com o texto de um grande amigo, dono de uma linda linha cigana também, a qual eu dedico todo o meu carinho e meu respeito. Espero que gostem!

Já que, para mim, foi um imensa honra, sobretudo, um grande prazer receber os amigos em minha casa! 😀


“Sara sara sara.

Minha santa padroeira é Santa Sara.”

santa gitana

Mês de maio é um dos meses dedicados a louvar essa nossa santa poderosa, protetora, Santa Sara. E é por agradecimento em ter saradas muitas feridas por intermédio dela que, aceitando convite especialíssimo da Carol, tentarei repartir um pouco do que vejo sobre ela e o povo que a louva, meu querido povo gitano.

Há muito mistério em torno da história de Santa Sara, mas a versão mais comum fala de uma mulher negra que, valendo-se de véus, salvou Maria e alguns apóstolos entre as ondas revoltosas da maré. Como alegoria, a maré, o barco, Maria e todas as ferramentas ciganas carregam muito significado.

Padroeira da gravidez problemática, Santa Sara protege também o nascimento em partos difíceis, daí envolverem em tecidos os pertences da mãe ou da criança que vai nascer e colocar nela o nome de Sara ou de um dos apóstolos envolvidos no episódio da barca. Colocar sobre as coisas da criança e da mãe um pedaço de tecido seria o mesmo que cobrir a delicadeza do nascer com outro ventre. Santa Sara aglutina várias referências à maternidade. Maria representaria, pela história, nós mesmos, homens e mulheres que carregamos no coração a possibilidade de salvar o mundo de seu sofrimento, navegando pela intempérie de viver num mundo turbulento, agitado, onde expiamos para crescer. E essa maneira de lidar com a dor tem no povo cigano sentido especial.

sevilanasEnquanto os gregos falavam em musas que intuíam, assopravam o que o artista faria, fosse ele escultor, poeta, músico, para o povo cigano, especialmente aqueles de origem andaluz, não é disso que nasce a arte. Para eles, o artista verdadeiro é aquele que tem e luta contra seu duende.

Duende é palavra que carrega inúmeros significados entre a cultura cigana, mas, se tentarmos reduzir aqui para explicar, duende seria um profundo incômodo, quase subterrâneo com o qual o artista briga para fazer seu trabalho artístico. E, estando ele tomado por esse duende, o espectador não pode e nem consegue pensar em outra coisa que não seja sua performance. Traço típico da dança flamenca, por exemplo. Fazer arte, então é, mais que isso, viver, então, é produzir beleza através da própria dor, da dor de ser, da dor dos ancestrais.

O soar das castanholas é outro símbolo importante. As ciganas subiam nas mesas para tocá-las bem alto quando havia invasores entre a caravana querendo atacar seu povo de alguma forma. Seduzidos pela dança, pelo som, não percebiam a fuga sorrateira do povo que queriam maltratar. E a figura cigana carrega em si nossa capacidade de mudar, nosso habitar temporário no mundo e nas situações que vivemos e a passagem breve de todas as coisas, a fugacidade.

Se sou cigano, vejo que os amores, o sofrimento, a alegria, os sabores, os trabalhos, os desentendimentos, a vida e a morte levadas em volta da fogueira não duram mais que o crepitar da última lenha na lareira, daí realçar ou atenuar seu devido valor. Não estabelecer moradia fixa é a aprendizagem de lidar com a extrema instabilidade da vida. Mas os ciganos dançam, bebem, fazem orações e aproveitam, como ninguém, sorrindo, a festividade de cada momento que é único e jamais se repetirá. E é por isso que nós, aprendendo com eles, devemos em maio, sair em romaria louvando La Gitana (como a chamam os Rom, família cigana, em Campinas) cantando em roda, mãos dadas, para pedir que sejamos a liberdade e a força que a gente carrega.

João Pires

PS: Iconografia gentilmente cedida pelo autor, incluindo, a belíssima sugestão do vídeo abaixo… Optchá!

maio 26, 2009

Adorei as Almas

Posted in Aprendizado, Guias e Orixás, Mentores, Pretos-velhos às 4:07 am por carolyara

Pretos-velhos na Umbanda

Pretos-velhos na Umbanda

Para falar dos pretinhos-velhos é preciso resgatar uma lamentável época da história da nossa colonização: a escravidão dos negros africanos. As grandes Metrópoles (Portugal, Espanha, Inglaterra, França, etc.) subjulgavam suas colônias, fazendo dos negros mercadorias, objetos sem direitos ou alma.

No Brasil os escravos negros chegavam por Recife e Salvador, nos séculos XVI e XVII, e no Rio de Janeiro, no século XVIII. Os primeiros grupos que vieram para essas regiões foram os bantos; cabindos; sudaneses; iorubás; geges; hauçá; minas e malês. A valorização do tráfico negreiro, fonte da riqueza colonial, custou-nos quatro séculos, do XV ao XIX, de exploração escancarada (entre escravizados e mortos 65 a 75 milhões de pessoas). Um contingente que constituiu uma parte considerável da população local.

Desse contexto, é importante perceber como seus cultos eram a forma dos escravos resistiam, simbolicamente, à dominação. A “macumba” era, (e ainda é!) um ritual de liberdade, protesto, reação à opressão. As rezas, batucadas, danças e cantos representavam maneiras de aliviar a asfixia da escravidão.

Estes negros aos poucos conseguiram envelhecer e constituir – mesmo de maneira precária – uma união representativa da língua, do culto aos Orixás e aos antepassados e, tornaram-se, assim, um elemento de referência para os mais novos. Quem refletia os velhos costumes da Mãe África. Assim, eles conseguiam preservar e até modificar, no sincretismo, parte importante de sua cultura e sua religião.

Hoje, pensar na corrente das alma – essa linha tão bendita que, humildemente celebramos no mês de Maio – é o mesmo que pensar nessas milhares de espíritos que desencarnaram, cada qual, em situações bastante adversa, mas que hoje voltaram para a prática da caridade e do aprimoramento moral e espiritual. Até porque, muitos eram os que morriam precocemente, daí a missão desses espíritos em dar continuidade em seus adiantamentos, por partirem quando suas missões ainda não estava totalmente cumprida.

Muitos ainda, usando seu linguajar característico, praticando os sagrados rituais do culto, utilizados desde tempos imemoriais, manifestaram-se em indivíduos previamente selecionados de acordo com a sua ascendência (linhagem), costumes, tradições e cultura. A legião de espíritos chamados “pretos-velhos” foi formada no Brasil, como parte integrante e fundamental do Culto aos Orixás.

preto_velhoFormação da Falange dos Pretos-Velhos na Umbanda

Depois de mortos, passaram a surgir em lugares adequados, principalmente para se manifestarem. Ao se incorporarem, trazem os Pretos-Velhos os sinais característicos das tribos a que pertenciam. O dia em que a Umbanda homenageia os Pretos-Velhos é 13 de maio, que é a data em que foi assinada a Lei Áurea (libertação dos escravos).

Eles representam a humildade, força de vontade, a resignação, a sabedoria, o amor e a caridade. São um ponto de referência para todos aqueles que necessitam: curam, ensinam, educam pessoas e espíritos sem luz. Não têm raiva ou ódio pelas humilhações, atrocidades e torturas a que foram submetidos no passado.

Com seus cachimbos, fala pausada, tranqüilidade nos gestos, eles escutam e ajudam àqueles que necessitam, independentes de sua cor, idade, sexo e de religião. São extremamente pacientes com os seus filhos e, como poucos, sabem discorrer sobre conceitos como karma e resignação como ninguém

Não se pode dizer que em sua totalidade esses espíritos são diretamente os mesmos Pretos-Velhos da escravidão. Pois, no processo cíclico da reencarnação passaram por muitas vidas anteriores foram: negros escravos, filósofos, médicos, ricos, pobres, iluminados, e outros. Mas, para ajudar aqueles que necessitam escolheram ou foram escolhidos para voltar a terra em forma incorporada de Preto-Velho. Outros, nem negros foram, mas escolheram como missão voltar nessa pseudo-forma. Assim como crianças, caboclos e outras Linhas de Umbanda. Esses espíritos assumem esta forma com o objetivo de manter uma perfeita comunicação com aqueles que os vão procurar em busca de ajuda assim, com essa identidade e afinidade.

O espírito que evoluiu tem a capacidade de assumir qualquer forma, pois ele é energia viva e conduzente de luz, a forma é apenas uma conseqüência do que eles tenham que fazer na terra. Tudo isso vai de acordo com o seu trabalho, sua missão.

Para muitos os Pretos-Velhos são conselheiros mostrando a vida e seus caminhos; para outros, são pisicólogos, amigos, confidentes, mentores espirituais; para outros, são os exorcistas que lutam com suas mirongas, banhos de ervas, pontos de fogo, pontos riscados e outros, apoiados pelos exus desfazendo trabalhos. Também combatem as forças negativas (o mal), espíritos obssessores e kiumbas.

Características:

    • Linha e Irradiação: Todos os Pretos-Velhos vem na linha de Obaluaiê, mas cada um vem na irradiação de um Orixá diferente
    • Fios de Contas (Guias): Muitos dos Pretos-Velhos Gostam de Guias com Contas de Rosário de Nossa Senhora, alguns misturam favas e colocam Cruzes ou Figas feitas de Guiné ou Arruda
    • E um detalhe curioso: Essas cores são usadas porque, sendo os Pretos-Velhos almas de escravos, lembram que eles só podiam andar de branco ou xadrez preto e branco, em sua maioria. Temos também a Guia de lágrima de Nossa Senhora, semente cinza com uma palha dentro. Essa Guia vem dos tempos dos cativeiros, porque era o material mais fácil de se encontrar na época dos escravos, cuja planta era encontrada em quase todos os lugares.
    • Roupas: Preta e branca; carijó (xadrez preto e branco). As Pretas-Velhas às vezes usam lenços na cabeça e/ou batas; e os Pretos-Velhos às vezes usam chapéu de palha.
    • Bebida: Café preto, vinho tinto, vinho moscatel, cachaça com mel (às vezes misturam ervas, sal, alho e outros elementos na bebida).
    • Dia da semana: Segunda-feira
    • Planeta regente: Saturno
    • Cor representativa: preto e branco;
    • Saudação: “Adorei as Almas”
    • Fumo: cachimbos ou cigarros de palha.
      • Obs: Os Pretos-Velhos às vezes usam bengalas ou cajados.

Qualidade dos Pretos-Velhos:

agnes-do-santo2A linha é um todo, com suas características gerais, ditas acima, mas diferenças ocorrem porque os Pretos-Velhos são trabalhadores de orixás e trazem para sua forma de trabalho a essência da irradiação do Orixá para quem eles trabalham. Essas diferenças são evidenciadas na incorporação e também na maneira de trabalhar e especialidade deles. Para exemplificar, separaremos abaixo por Orixás:

Pretos-Velhos De Ogum: São mais rápidos na sua forma incorporativa e sem muita paciência com o médium e as vezes com outras pessoas que estão cambonando e até consulentes. São diretos na sua maneira de falar, não enfeitam muito suas mensagens, as vezes parece que estão brigando, para dar mesmo o efeito de “choque”, mais são no fundo extremamente bondosos tanto para com seu médium e para as outras pessoas. São especialistas em consultas encorajadoras, ou seja, encorajando e dando segurança para aqueles indecisos e “medrosos”.  É fácil pensar nessa característica pois Ogum é um Orixá considerado corajoso.

Pretos-Velhos De Oxum: São mais lentos na forma de incorporar e até falar.  Passam para o médium uma serenidade inconfundível. Não são tão diretos para falar, enfeitam o máximo a conversa para que uma verdade dolorosa possa ser escutada de forma mais amena, pois a finalidade não é “chocar” e sim, fazer com que a pessoa reflita sobre o assunto que está sendo falado. São especialistas em reflexão, nunca se sai de uma consulta de um Preto-Velho de Oxum sem um minuto que seja de pensamento interior.  As vezes é comum sair até mais confuso do que quando entrou, mas é necessário para a evolução daquela pessoa.

Pretos-Velhos De Xangô: Sua incorporação é rápida como as de Ogum. Assim como os caboclos de Xangô, trabalham para causas de prosperidade sólida, bens como casa própria, processo na justiça e realizações profissionais. Passam seriedade em cada palavra dita.  Cobram bastante de seus médiuns e consulentes.

Pretos-Velhos De Iansã: São rápidos na sua forma de incorporar e falar.  Assim como os de Ogum, não possuem também muita paciência para com as pessoas. Essa rapidez é facilmente entendida, pela força da natureza que os rege, e é essa mesma força lhes permite uma grande variedade de assuntos com os quais ele trata, devido a diversidade que existe dentro desse único Orixá. Geralmente suas consultas são de impacto, trazendo mudança rápida de pensamento para a pessoa.  São especialistas também em ensinar diretrizes para alcançar objetivos, seja pessoal, profissional ou até espiritual. Entretanto, é bom lembrar que sua maior função é o descarrego.  É limpar o ambiente, o consulente e demais médiuns do terreiro, de eguns ou espíritos de parentes e amigos que já se foram, e que ainda não se conformaram com a partida permanecendo muito próximos dessas pessoas.

Pretos-Velhos De Oxossi: São os mais brincalhões, suas incorporações são alegres e um pouco rápidas. Esses Pretos-Velhos geralmente falam com várias pessoas ao mesmo tempo. Possuem uma especialidade:  A de  receitar remédios naturais, para o corpo e a alma, assim como emplastros, banhos e compressas, defumadores, chás, etc…  São verdadeiros químicos em seus tocos. – Afinal não podiam ser diferentes, pois são alunos do maior “químico” – Oxossi.

Pretos-Velhos De Nanã: São raros, sua maneira de incorporação é de forma mais envelhecida ainda.  Lenta e muito pesada.  Enfatizando ainda mais a idade avançada. Falam rígido, com seriedade profunda.  Não brincam nas suas consultas e prezam sempre o respeito, tanto do médium quanto do consulente, e pessoas a volta como: cambonos e pessoas do terreiro em geral e principalmente do pai ou da mãe de santo. Cobram muito do seu médium, não admitem roupas curtas ou transparentes. Seu julgamento é severo.  Não admite injustiça. Costumam se afastar dos médiuns que consideram de “moral fraca”.  Mais prezam demais a gratidão, de uma forma geral.  Podem optar por ficar numa casa, se seu médium quiser sair, se julgar que a casa é boa, digna e honrada. É difícil a relação com esses guias, principalmente quanto há discordância, ou seja, não são muito abertos a negociação no momento da consulta. São especialistas em conselhos que formem moral, e entendimento do nosso karma, pois isso sem dúvida é a sua função. Atuam também como os de Inhasã e Obaluaiê, conduzindo Eguns.

pretos-velhosPretos-Velhos De Obaluaiê: São simples em sua forma de incorporar e falar.  Exigem muito de seus médiuns, tanto na postura quanto na moral. Defendem quem é certo ou quem está certo, independente de quem seja, mesmo que para isso ganhem a antipatia dos outros. Agarram-se a seus “filhos” com total dedicação e carinho, não deixando no entanto de cobrar e corrigir também.  Pois entendem que a correção é uma forma de amar. Devido a elevação e a antiguidade do Orixá para o qual eles trabalham, acabam transformando suas consultas em conselhos totalmente diferenciados dos demais Pretos-Velhos.  Ou seja,  se adaptam a qualquer assunto e falam deles exatamente com a precisão do momento. Como trabalha para Obaluaiê, e este é o “dono das almas”, esses Pretos-Velhos são geralmente chefes de linha e assim explica-se a facilidade para trabalhar para vários assuntos. Sua “visão” é de longo alcance para diversos assuntos, tornando-os capazes de traçar projetos distantes e longos para seus consulentes.  Tanto pessoal como profissional e até espiritual. Assim exigem também fiel cumprimento de suas normas, para que seus projetos não saiam errado, para tanto, os filhos que os seguem, devem fazer passo a passo tudo que lhes for pedido, apenas confiando nesses Pretos-Velhos. Gostam de contar histórias para enriquecer de conhecimento o médium e as pessoas a volta.

Pretos-Velhos De Iemanjá: São belos em suas incorporações, contudo mantendo uma enorme simplicidade.  Sua fala é doce e meiga. Sua especialidade maior é sem dúvida os conselhos sobre laços espirituais e familiares. Gostam também de trabalhar para fertilidade de um modo geral, e especialmente para as mulheres que desejam engravidar. Utilizando o movimento das ondas do mar, são excelentes para descarregos e passes.

Pretos-Velhos De Oxalá: São bastante lentos na forma de incorporar, tornam-se belos principalmente pela simplicidade contida em seus gestos. Raramente dão consulta, sua maior especialidade é dirigir e instruir os demais Pretos-Velhos. Cobram bastante de seus médiuns, principalmente no que diz respeito a prática de caridade, bom corpontamento moral dentro e fora do terreiro, ausência de vícios, humildade; enfim o cultivo das virtudes mais elevadas.

Fontes de pesquisa e estudo:

* Sabedoria de Preto Velho – Pinheiro, Robson

* Livro dos Espíritos – Allan Kardec

* http://www.akcm.org.br/pai-joaquim.htmhttp://www.aevb.org/

* http://br.geocities.com/monazitica/pretosvelhos2.html

* Escravidão no Brasil, suapesquisa.com.br

Lamento de Negro…

Posted in Guias e Orixás, Mentores, Pretos-velhos às 3:34 am por carolyara

A ancestralidade na Umbanda

A ancestralidade na Umbanda

Sofri no eito,

sofri na senzala,

Quanta dô em meu peito!

Chorei, sofri,

Apanhei de todo jeito

De sofrer quase morri

Quanta dô em meu peito!

Suor, lágrimas, derramei,

De dor, de saudade, chorei,

Sob o sol, sob a chuva no eito.

Quanta dô em meu peito!

Veio a liberdade,

Ainda assim eu chorei,

De alegria é verdade.

A tristeza não deixei,

Negro assim, não tem jeito.

Quanta dô em meu peito!

Morto, ao mundo, voltei.

Ouço quixa e sofrimento

Em todos os terreiros.

Quanta dô em meu peito!

É o continuar do meu lamento!

(Decelso – Livro: O Rosário do Preto-velho)

Escolhi esse poeminha, porque ele traduz algumas coisas muito bacanas que aprendi com essa linha e, em especial, a Guia que acompanha as mulheres da minha família, desde antes de eu nascer: Vó Joaquina! O verdadeiro “Lamento de Negro” que essa corrente tão magnífica traz no bojo de sua energia não é aquele lamento que conhecemos. De mal dizer a vida, de distruibuir lamúrias infinitas. Essa é diferente… é uma lamentação que é forjada na luta, na resistência, na sobrevivência diária de nossas próprias ‘condenações’.

E não tem jeito. Todo mundo sofre, todo mundo chora, todo mundo sente muita dor no peito. Em algum momento da nossa vida, acho que temos esses momentos de padecer na pele, no couro e na carne o que é um açoite da vida. E o que é essa condição de escravos de nós mesmos.

Minha preta-velha diz que não baixa nos Ilês como Mãe Joaquinha, porque ao contrário de muitos escravos, ela morreu de velhice. Trabalhou como mucama em uma Casa Grande, dessas de Engenho Colonial, servindo a familia do “Sinhozinho” até 3ª geração. Fora os negrinhos da senzala que era sempre ela quem batizava. Dona de uma excelente cozinha, herdou da sua nação africana os conhecimentos de feituras, magia e mistérios. Ganhou sua liberdade já velinha… segundo ela depois dos 60 anos. E o engraçado é que, só depois de anos fui ligar isso com um fator histórico: ela, provavelmente, deve ter visto a abolição dos escravos. Deve ter sido daquelas escravas que trabalharam nas fazendas de café (já que minha família toda, por parte de mãe, descende de Minas Gerais). Por isso, ela de repente ela foi uma entre os muitos negros contemplados com a Lei do Sexagenário… uma passagem da História que – confesso – com 27 anos, eu já nem lembrava com tanta precisão assim.

Seja como for, nas palavras da própria Vó Joaquina, aquele foram tempos onde ela já era cativa da própria condição de vida dela. Ela ganhou a liberdade mas sua alma já era cativa. Ela ja não sabia mais viver sem estar ali, a cuidar da Casa Grande e, a noite, girar no gueto. E hoje, quando ela vê pessoas, cada vez mais, presas as suas próprias lamúrias, distante do Lamento de Negro, tudo o que mais vejo ela fazer é banhar seus assistidos em uma nova percepção dos seus dias, dos seus afazeres e do que elas andam fazendo com seus próprios Destinos, para que a repetição insana da escravidão cotidiana não as tornem cativas de suas próprias escoolhas. Seu trabalho vem sempre nessa linha de alforriar as pessoas, sempre que pode, para novos começos. Para o resgate do direito a ser livre, antes que a gaiola passe a coexistir entre as plumas de nossas asas. E assim, deixar que fique cada vez mais difícil o legítimo direito de ser livre para voar!

Que nesse último 13 de Maio… e ao longo de todos esses dias, até a próxima Festa de Pretos-velhos possamos refletir sobre isso. E retirar da experiência sábia vivida pelos pretos-velhos, um esteio onde aportar nossas próximas aspirações. Adorei as almas!!!