novembro 12, 2012

História de Exú Morcego

Posted in Artigos Sugeridos, Exu e Pomba-Gira, História e Origens tagged , às 11:25 pm por carolyara

Imagem

Em um castelo, inteiramente de pedra, mal cuidado e isolado no meio de uma floresta, típico daqueles pertencentes ao feudo europeu, vivia um homem branco e corpulento, trajando uma surrada roupa, provavelmente antes pertencente a um guarda-roupa fino. Percebia-se o desgaste causado pelo passar do tempo, pois ainda carregava uma grossa e rica corrente de ouro de bom quilate, com um enorme crucifixo do mesmo cobiçado material. Parecia viver na solidão, muito embora no castelo vivessem vários serviçais. Na torre do castelo, as janelas foram fechadas com pedra, e só pequenas frestas foram feitas no alto das paredes. A luz não podia entrar. A torre não tinha paredes internas, formando uma enorme sala, com pesada mesa de madeira tosca, tendo como iluminação dois castiçais de um só vela cada. Ao lado da tênue luz das velas, livros se espalhavam sobre a mesa, mostrando ser aquele homem um estudioso e que algo buscava na literatura. De braços abertos, com um capuz preto cobrindo sua cabeça, emitia estranhos e finos sons, tentando descobrir o segredo da conhecida Sagrada Arte. Pelas frestas da torre, entravam e saiam voando vários morcegos com os quais ele procurava inspiração e força para atingir sua conquista. Por quê? Não sei. A idéia e as razões eram da estranha figura. Parecia um homem de fino trato, transfigurado na fixação de atingir um poder que não lhe pertencia. Seu nome? Também não sei. Só o conheço incorporado nos terreiros como o querido mas temido Exu Morcego.

Guland, o senhor alquimista que me acompanha é proprietário de muitos mistérios e segredos, mas nenhum deles me causaram tanta admiração e respeito quanto sua linhagem de atuação. Hoje, ele é Guardião do Vale dos Suicidas e já teve seu corpo perispiritual muuuuuito deformado por suas sucessivas vidas interrompidas das mais diversas formas. E exatamente por isso levei mais de 4 anos, com o trabalho de sucessivas incorporações nas linhas de esquerda, entregas e rezas para que ele perdesse seu aspecto deforme, quase animalesco e voltasse seu aspecto humano.

Exu Morcego
Lider da 11ª falange.

Comanda Exus como Asa Negra , Exu Coruja , Exu Sombra , 7 Sombras , entre muitos outros. Exu nervoso , anti-social não é muito de prosa mas qdo faz algum tipo de trabalho como ele mesmo diz ” vai buscar voando ” e sempre cumpre com o que diz. Deve se ter um cuidado muito especial com este Exu, por ser considerado guardiões de muitos mistérios!!!

Laroyê Guland e moju ibá!
Laroyê Exu Morcego e mojubá!

julho 3, 2009

Os ciganos e Santa Sara

Posted in Artigos Sugeridos, Ciganos, Linha do Oriente, Mentores, Recomendo às 2:04 am por carolyara

Mês de MAIO foi o Mês de Santa Sara e de louvor ao meu querido povo cigano!

Lamento por não ter conseguido fazer os posts em suas épocas respectivas. MAS, por se tratar de uma corrente tão forte e tão intensa na minha vida, não poderia deixar de homenageá-la, mesmo assim. E, para tanto, resolvi começar minhas homenagens com o texto de um grande amigo, dono de uma linda linha cigana também, a qual eu dedico todo o meu carinho e meu respeito. Espero que gostem!

Já que, para mim, foi um imensa honra, sobretudo, um grande prazer receber os amigos em minha casa! 😀


“Sara sara sara.

Minha santa padroeira é Santa Sara.”

santa gitana

Mês de maio é um dos meses dedicados a louvar essa nossa santa poderosa, protetora, Santa Sara. E é por agradecimento em ter saradas muitas feridas por intermédio dela que, aceitando convite especialíssimo da Carol, tentarei repartir um pouco do que vejo sobre ela e o povo que a louva, meu querido povo gitano.

Há muito mistério em torno da história de Santa Sara, mas a versão mais comum fala de uma mulher negra que, valendo-se de véus, salvou Maria e alguns apóstolos entre as ondas revoltosas da maré. Como alegoria, a maré, o barco, Maria e todas as ferramentas ciganas carregam muito significado.

Padroeira da gravidez problemática, Santa Sara protege também o nascimento em partos difíceis, daí envolverem em tecidos os pertences da mãe ou da criança que vai nascer e colocar nela o nome de Sara ou de um dos apóstolos envolvidos no episódio da barca. Colocar sobre as coisas da criança e da mãe um pedaço de tecido seria o mesmo que cobrir a delicadeza do nascer com outro ventre. Santa Sara aglutina várias referências à maternidade. Maria representaria, pela história, nós mesmos, homens e mulheres que carregamos no coração a possibilidade de salvar o mundo de seu sofrimento, navegando pela intempérie de viver num mundo turbulento, agitado, onde expiamos para crescer. E essa maneira de lidar com a dor tem no povo cigano sentido especial.

sevilanasEnquanto os gregos falavam em musas que intuíam, assopravam o que o artista faria, fosse ele escultor, poeta, músico, para o povo cigano, especialmente aqueles de origem andaluz, não é disso que nasce a arte. Para eles, o artista verdadeiro é aquele que tem e luta contra seu duende.

Duende é palavra que carrega inúmeros significados entre a cultura cigana, mas, se tentarmos reduzir aqui para explicar, duende seria um profundo incômodo, quase subterrâneo com o qual o artista briga para fazer seu trabalho artístico. E, estando ele tomado por esse duende, o espectador não pode e nem consegue pensar em outra coisa que não seja sua performance. Traço típico da dança flamenca, por exemplo. Fazer arte, então é, mais que isso, viver, então, é produzir beleza através da própria dor, da dor de ser, da dor dos ancestrais.

O soar das castanholas é outro símbolo importante. As ciganas subiam nas mesas para tocá-las bem alto quando havia invasores entre a caravana querendo atacar seu povo de alguma forma. Seduzidos pela dança, pelo som, não percebiam a fuga sorrateira do povo que queriam maltratar. E a figura cigana carrega em si nossa capacidade de mudar, nosso habitar temporário no mundo e nas situações que vivemos e a passagem breve de todas as coisas, a fugacidade.

Se sou cigano, vejo que os amores, o sofrimento, a alegria, os sabores, os trabalhos, os desentendimentos, a vida e a morte levadas em volta da fogueira não duram mais que o crepitar da última lenha na lareira, daí realçar ou atenuar seu devido valor. Não estabelecer moradia fixa é a aprendizagem de lidar com a extrema instabilidade da vida. Mas os ciganos dançam, bebem, fazem orações e aproveitam, como ninguém, sorrindo, a festividade de cada momento que é único e jamais se repetirá. E é por isso que nós, aprendendo com eles, devemos em maio, sair em romaria louvando La Gitana (como a chamam os Rom, família cigana, em Campinas) cantando em roda, mãos dadas, para pedir que sejamos a liberdade e a força que a gente carrega.

João Pires

PS: Iconografia gentilmente cedida pelo autor, incluindo, a belíssima sugestão do vídeo abaixo… Optchá!