julho 3, 2009

Aruanda: minha terra prometida

Posted in Aprendizado, Filhos de Aruanda, Mediunidade, Relatos e experiências às 3:49 am por carolyara

122108142214Eu trabalho como filha de santo na Umbanda desde 2004.

Ano que vem eu completo 6 anos como médium coroada. E, nesse tempo todo, devo dizer que o sentimento que eu sempre trago de lá, quando os trabalhos termina, sempre tem sido o mesmo: plenitude e emoção!

E eu nem digo pelo templo, pelo método ou pelo tambor… mas por todo aquele fervor que o meu corpo exala quando o chão começa a vibrar na sola do meu pé, todo o batimento que dispara no meu coração. Todo a intensidade de entrega e carinho que devoto aos meus orixás quando os sinto se aproximar, colocando suas mãos pousadas sobre meus ombros.

A Umbanda para mim é solo sagrado. É minha areia branca das dunas do caribe com aquelas praias verde água de Fernando de Noronha. Não por ser o Caribe ou por Fernando de Noronha, mas pela vibração boa dos trópicos. Pela cor da areia fofa e a transparência da água fresca. HOJE, percebo que, às véspera de um importante e novo rito de passagem que está por vir, cada vez mais, essa consagração de mar e mato se firma sobre a minha coroa, com as bençãos do meu PAI OXALÁ!! Só ele mesmo para consagrar a lacuna que Ogum carinhosamente, me fez batalhar para conseguir, dia após dias. Ano após ano, ao longo desses período todo.

centenario-Umb.-08-007Estar na tenda onde eu trabalho, com minha roupa de santo e minhas guias, entre os meus irmãos de fé, na corrente de Aruanda, é como integrar um momento mágico. E perceber esse caminho até o dia de hoje é mais do que uma dádiva sagrada, é louvor bendito da minha alma amalgamada em cada um dos passos que eu percorri e ainda percorro em direção aos Orixás!!! De doação desprendida, de elevação moral, de fraternidade. Ser a que traz os guias e poder testemunhar suas manifestações sobre a Terra é quase como ser instrumento do amor de Deus. Que é tão grande e misericordioso que nos dá a chance de poder estar com as irradiações naturais de sua própria criação para nos fazer resgatar aquela centelha divina que em todos habita.

Assim… a cada atendimento prestado, a cada colo ofertado e a cada trabalho evocado… (dos singelos aos elaborados, dos coletivos aos reservados), posso dizer que ganho um pedacinho a mais de mim. Afinsal, toda saia que roda, todo couro de atabaque que vibra e toda fumaça que sobe dos pitos dos baianos são definitvamente votos de fé, compromissos de amor e, sobretudo, a grande magia sagrada de luz!

Por isso… Aruanda é minha terra prometida… onde os filhos de Oxalá se encontrarão em uma gira de muita alegria e festa para saudar a Humanidade! SARAVÁ!!!!

Legenda das imagens: Trabalho realizado em 21 de dezembro, no Santuário Nacional de Umbanda (primeira) e parte do altar montado em comemoração ao Centenário Nacional de Umbanda (segunda), comemorado em 15 de novembro de 2008.

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O Ritual de Coroação na Umbanda

Posted in 7 Linhas Sagradas, Consagrações de Umbanda, Linhas de Umbanda Sagrada, Ritual de Umbanda às 2:54 am por carolyara

COROAÇÃOEsse tem sido tempos de preparação para a Coroação!

E sendo este um ritual tão bonito e fundamental na vida de qualquer filho de santo, não poderia deixar de falar dele…

A coroação é, sem dúvida nenhuma, uma demonstração de que o médium alcançou um nível aceitável em seu desenvolvimento, importante para um bom trabalho espiritual. Assim, o que o ritual representa é que depois de coroado o médium passa a ter uma responsabilidade ainda maior perante ao seu trabalho e os seus guias. Eu sei que o mais bonito é a consagração, a cerimônia. O exctase e o burbirinho é inevitável, ainda mais para os novos… mas a verdade, que pouca pessoa se lembra é: depois da coroação, o médium já está apto a servir de forma mais assentada as lições dos seus guias e protetores e, assim, seu compromisso de instrumentos dos orixás também se amplia.

Além disso, é graças a firmeza da coroação que o médium preparado pode participar de trabalhos mais pesados, como desmanchar macumba, desobsessões de espíritos raivosos, demandas, entre outros e pode ainda até ajudar no desenvolvimento de médiuns mais novos na casa. Ou seja, é um universo que não só é maior em termos de trabalho mas que, para nós filhos de santo, cresce proporcionalmente também o tipo de seriedade, cuidado e dedicação que temos ter com o que nos propomos a desenvolver.

Note que, até agora, eu não falei nada sobre a coroação e o vínculo com uma formação sacerdotal, por exemplo… porque para ser Babalorixá,  Pai ou Mãe pequenos, ou qualquer outra hierarquia afim, cada casa tem seu mistério e seu rito específico. Uma coisa não confere a ninguém pré-requisito a outra, sob hipótese alguma. Trata-se apenas de um novo estágio que a pessoa alcança em sua evolução mediúnica. E, pessoalmente falando, para mim isso já é uma grande coisa!!!

Mas voltemos o rito em si!

simbolos da umbandaNo dia da coroação, a entidade mentora daquele médium confirma que é seu orixá de frente (normalmente ela já o fez antes da coroação). Cada casa tem seu protocolo nesse dia, mas basicamente, a consagração se dá justamente para esse momento de confirmação de coroa mediúnica, daí o nome do ritual. Em seguida, ela revela (de alguma forma, rs) a falange em que trabalha, ao trazer o caboclo protetor, responsável pelo desenvolvimento mediúnico do filho de santo. E claro, tudo acontece diante do mentor da casa que é quem atesta o ocorrido.

Depois disso, o mentor da casa, num ato simbólico, coloca uma coroa na cabeça do médium incorporado e todos os presentes saúdam a entidade. Assim, o médium coroado torna-se apto a participar dos trabalhos que exigem um maior conhecimento e principalmente um melhor entrelaçamento com suas entidades espirituais. Aí, sob um cântico apropriado para a ocasião, se consagrada todos os caboclos que estão em terra e que são simbolicamente coroados, junto com seus filhos de fé!! E que dançando e bradando, confirmam o novo degrau que a corrente inteira dos médiuns da casa alcançaram juntas, após este momento.

O mais importante é, neste momento, está na conscientização de cada médium da importância do que isso significa. E que ele não perder a jamais consciência de que a humildade deve prevalecer sobre qualquer etapa do seu desenvolvimento; já que, daquele coroação em diante, suas responsabilidades serão ainda maiores!!!
……………………….

Fonte de apoio: http://www.tendacaxana.com.br/index.php?cont=43&id=125
Edição: by Carol Yara.

Meus sinceros agradecimento ao Sandro da Costa Mattos, pelas belíssimas explicações!

Os ciganos e Santa Sara

Posted in Artigos Sugeridos, Ciganos, Linha do Oriente, Mentores, Recomendo às 2:04 am por carolyara

Mês de MAIO foi o Mês de Santa Sara e de louvor ao meu querido povo cigano!

Lamento por não ter conseguido fazer os posts em suas épocas respectivas. MAS, por se tratar de uma corrente tão forte e tão intensa na minha vida, não poderia deixar de homenageá-la, mesmo assim. E, para tanto, resolvi começar minhas homenagens com o texto de um grande amigo, dono de uma linda linha cigana também, a qual eu dedico todo o meu carinho e meu respeito. Espero que gostem!

Já que, para mim, foi um imensa honra, sobretudo, um grande prazer receber os amigos em minha casa! 😀


“Sara sara sara.

Minha santa padroeira é Santa Sara.”

santa gitana

Mês de maio é um dos meses dedicados a louvar essa nossa santa poderosa, protetora, Santa Sara. E é por agradecimento em ter saradas muitas feridas por intermédio dela que, aceitando convite especialíssimo da Carol, tentarei repartir um pouco do que vejo sobre ela e o povo que a louva, meu querido povo gitano.

Há muito mistério em torno da história de Santa Sara, mas a versão mais comum fala de uma mulher negra que, valendo-se de véus, salvou Maria e alguns apóstolos entre as ondas revoltosas da maré. Como alegoria, a maré, o barco, Maria e todas as ferramentas ciganas carregam muito significado.

Padroeira da gravidez problemática, Santa Sara protege também o nascimento em partos difíceis, daí envolverem em tecidos os pertences da mãe ou da criança que vai nascer e colocar nela o nome de Sara ou de um dos apóstolos envolvidos no episódio da barca. Colocar sobre as coisas da criança e da mãe um pedaço de tecido seria o mesmo que cobrir a delicadeza do nascer com outro ventre. Santa Sara aglutina várias referências à maternidade. Maria representaria, pela história, nós mesmos, homens e mulheres que carregamos no coração a possibilidade de salvar o mundo de seu sofrimento, navegando pela intempérie de viver num mundo turbulento, agitado, onde expiamos para crescer. E essa maneira de lidar com a dor tem no povo cigano sentido especial.

sevilanasEnquanto os gregos falavam em musas que intuíam, assopravam o que o artista faria, fosse ele escultor, poeta, músico, para o povo cigano, especialmente aqueles de origem andaluz, não é disso que nasce a arte. Para eles, o artista verdadeiro é aquele que tem e luta contra seu duende.

Duende é palavra que carrega inúmeros significados entre a cultura cigana, mas, se tentarmos reduzir aqui para explicar, duende seria um profundo incômodo, quase subterrâneo com o qual o artista briga para fazer seu trabalho artístico. E, estando ele tomado por esse duende, o espectador não pode e nem consegue pensar em outra coisa que não seja sua performance. Traço típico da dança flamenca, por exemplo. Fazer arte, então é, mais que isso, viver, então, é produzir beleza através da própria dor, da dor de ser, da dor dos ancestrais.

O soar das castanholas é outro símbolo importante. As ciganas subiam nas mesas para tocá-las bem alto quando havia invasores entre a caravana querendo atacar seu povo de alguma forma. Seduzidos pela dança, pelo som, não percebiam a fuga sorrateira do povo que queriam maltratar. E a figura cigana carrega em si nossa capacidade de mudar, nosso habitar temporário no mundo e nas situações que vivemos e a passagem breve de todas as coisas, a fugacidade.

Se sou cigano, vejo que os amores, o sofrimento, a alegria, os sabores, os trabalhos, os desentendimentos, a vida e a morte levadas em volta da fogueira não duram mais que o crepitar da última lenha na lareira, daí realçar ou atenuar seu devido valor. Não estabelecer moradia fixa é a aprendizagem de lidar com a extrema instabilidade da vida. Mas os ciganos dançam, bebem, fazem orações e aproveitam, como ninguém, sorrindo, a festividade de cada momento que é único e jamais se repetirá. E é por isso que nós, aprendendo com eles, devemos em maio, sair em romaria louvando La Gitana (como a chamam os Rom, família cigana, em Campinas) cantando em roda, mãos dadas, para pedir que sejamos a liberdade e a força que a gente carrega.

João Pires

PS: Iconografia gentilmente cedida pelo autor, incluindo, a belíssima sugestão do vídeo abaixo… Optchá!