maio 26, 2009

Lamento de Negro…

Posted in Guias e Orixás, Mentores, Pretos-velhos às 3:34 am por carolyara

A ancestralidade na Umbanda

A ancestralidade na Umbanda

Sofri no eito,

sofri na senzala,

Quanta dô em meu peito!

Chorei, sofri,

Apanhei de todo jeito

De sofrer quase morri

Quanta dô em meu peito!

Suor, lágrimas, derramei,

De dor, de saudade, chorei,

Sob o sol, sob a chuva no eito.

Quanta dô em meu peito!

Veio a liberdade,

Ainda assim eu chorei,

De alegria é verdade.

A tristeza não deixei,

Negro assim, não tem jeito.

Quanta dô em meu peito!

Morto, ao mundo, voltei.

Ouço quixa e sofrimento

Em todos os terreiros.

Quanta dô em meu peito!

É o continuar do meu lamento!

(Decelso – Livro: O Rosário do Preto-velho)

Escolhi esse poeminha, porque ele traduz algumas coisas muito bacanas que aprendi com essa linha e, em especial, a Guia que acompanha as mulheres da minha família, desde antes de eu nascer: Vó Joaquina! O verdadeiro “Lamento de Negro” que essa corrente tão magnífica traz no bojo de sua energia não é aquele lamento que conhecemos. De mal dizer a vida, de distruibuir lamúrias infinitas. Essa é diferente… é uma lamentação que é forjada na luta, na resistência, na sobrevivência diária de nossas próprias ‘condenações’.

E não tem jeito. Todo mundo sofre, todo mundo chora, todo mundo sente muita dor no peito. Em algum momento da nossa vida, acho que temos esses momentos de padecer na pele, no couro e na carne o que é um açoite da vida. E o que é essa condição de escravos de nós mesmos.

Minha preta-velha diz que não baixa nos Ilês como Mãe Joaquinha, porque ao contrário de muitos escravos, ela morreu de velhice. Trabalhou como mucama em uma Casa Grande, dessas de Engenho Colonial, servindo a familia do “Sinhozinho” até 3ª geração. Fora os negrinhos da senzala que era sempre ela quem batizava. Dona de uma excelente cozinha, herdou da sua nação africana os conhecimentos de feituras, magia e mistérios. Ganhou sua liberdade já velinha… segundo ela depois dos 60 anos. E o engraçado é que, só depois de anos fui ligar isso com um fator histórico: ela, provavelmente, deve ter visto a abolição dos escravos. Deve ter sido daquelas escravas que trabalharam nas fazendas de café (já que minha família toda, por parte de mãe, descende de Minas Gerais). Por isso, ela de repente ela foi uma entre os muitos negros contemplados com a Lei do Sexagenário… uma passagem da História que – confesso – com 27 anos, eu já nem lembrava com tanta precisão assim.

Seja como for, nas palavras da própria Vó Joaquina, aquele foram tempos onde ela já era cativa da própria condição de vida dela. Ela ganhou a liberdade mas sua alma já era cativa. Ela ja não sabia mais viver sem estar ali, a cuidar da Casa Grande e, a noite, girar no gueto. E hoje, quando ela vê pessoas, cada vez mais, presas as suas próprias lamúrias, distante do Lamento de Negro, tudo o que mais vejo ela fazer é banhar seus assistidos em uma nova percepção dos seus dias, dos seus afazeres e do que elas andam fazendo com seus próprios Destinos, para que a repetição insana da escravidão cotidiana não as tornem cativas de suas próprias escoolhas. Seu trabalho vem sempre nessa linha de alforriar as pessoas, sempre que pode, para novos começos. Para o resgate do direito a ser livre, antes que a gaiola passe a coexistir entre as plumas de nossas asas. E assim, deixar que fique cada vez mais difícil o legítimo direito de ser livre para voar!

Que nesse último 13 de Maio… e ao longo de todos esses dias, até a próxima Festa de Pretos-velhos possamos refletir sobre isso. E retirar da experiência sábia vivida pelos pretos-velhos, um esteio onde aportar nossas próximas aspirações. Adorei as almas!!!

Anúncios

6 Comentários »

  1. Allan said,

    Eu descidi sou umbanda

  2. Silvania Gomes da Silva said,

    Eu sou apaixonada pela Umbanda me batizei mas não tive oportunidade de entrar na corrente e servir a os meus Orixas o meu sonho é um dia poder fazer parte de uma corrente de um centro de Umbanda e adimirar o quanta a vida nos proporciona momentos inesqueciveis….

  3. ROSE FELICIO said,

    amo os preto velho,exemplo de humildade,resignaçao, aceitaçao.
    parabéns pelos artigos publicados nos trazendo rico conhecimento, da doutrina, sua filosofia, sua cultura tão ricae tão bela.
    axe

  4. carolyara said,

    Os pretos-velhos são de fato uma linha muito especial em nossa querida Umbanda Sagrada!!

  5. Raquel said,

    Linda explicação sobre a linha dos pretos velhos,estou muito emocionada com o “Lamento de Negro” e com história de vó Joaquina!!

  6. joaquim Macedo said,

    Nossa, muito lindo o trecho e o poema acima!
    Hoje, nao estava bem. Entao lembrei que tinha salvado este blog para ler depois. Quando comecei a le-lo, me encantei ainda mais por esta umbanda magnifica que ainda estou conhecendo. Derrepente, ao ler as palavras acima, senti-me ouvido, pois foi o sinal que pedi esta noite!
    Uma boa noite a todos, e parabens pelas licoes, curiosidades e ensinamentos postados aqui.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: